A mulher que faz Mano Menezes chorar
Camilla Menezes, filha do técnico Mano Menezes, técnico do Corinthians, conta abaixo situações vividas com o pai. Siga na íntegra a entrevista.
Entrevistador: Qual a sua relação com o futebol?
Camilla: Eu não tive opção: ou gostava de futebol ou eu gostava de futebol. Programa na minha casa no fim de semana era acompanhar meu pai em campeonato de várzea no interior. Ele era zagueiro, o número 4. Esse era o programa: minha mãe, eu, uma cadeira que a gente sempre levava, e assim passava o domingo. Mesmo depois, quando meu pai virou treinador, era a mesma rotina.
Entrevistador: Você ainda fica magoada quando o Mano é criticado publicamente?
Camilla: Quando eu era pequena, ia aos jogos no interior e se alguém gritasse burro eu virava e encarava. Já chorei na arquibancada. Mas depois entendi que eu tinha que ser mais forte para poder servir de base para ele, para ele ver que tá tudo bem aqui, não importa o que esteja acontecendo lá fora.
Entrevistador: Você é corintiana?
Camilla: Hoje sou a pessoa mais corintiana que conheço, mas não dá para comparar com o torcedor tradicional, né? É outra coisa quando você tem alguém da família envolvido.
Entrevistador: Quando você foi pela primeira vez ao Pacaembu ver seu pai como treinador do Corinthians?
Camilla: Ano passado, em julho, fiz uma viagem ao Brasil e conheci o Andrés (Sanchez, presidente do Corinthians), o Joaquim Grava (médico do Corinthians), o Mario (Gobbi, vice-presidente de futebol do Corinthians), e a gente foi jantar depois de um jogo. Aquele foi o primeiro jogo do Corinthians que eu vi na vida: era série B, no Pacaembu. Foi curioso porque meu pai não sabia que eu estaria ali, era para ser uma surpresa. Aí, depois do jogo, minha mãe disse que seria legal se eu fosse ver a coletiva. Mas começou a me bater um nervoso porque todo mundo sabia que eu estava ali, menos meu pai. Sentei atrás de um jornalista bem alto e fiquei escondida esperando meu pai entrar. Quando o pai começou a falar, sai de trás do jornalista e fiquei de frente para ele. Ele olhou pra mim, abriu um sorrisão, e parecia que o mundo tinha parado. Nessa hora o Mario (Gobbi) falou: “agora vai ser difícil segurar, né, Mano?” O Mario gosta muito do meu pai, e a gente gosta muito do Mario também. Meu pai se emocionou muito, fazia 6 meses que ele não me via, e o olho dele se encheu de lágrima. Nessa hora eu pensei: o que eu faço agora? Meu pai está chorando em rede nacional de TV. Foi quando resolvi olhar para o Andrés para ver se o presidente me dava uma dica do que fazer. Mas quando olhei o Andrés estava chorando também. Aí eu pensei: bom, se o presidente está olhando pra mim e chorando, o que vou fazer? Não posso deixar meu pai chorando sozinho. Fui pedindo licença para alcançar meu pai e a gente se abraçou.
Entrevistador: Você sempre participou ativamente da vida profissional de seu pai?
Camilla: Em casa, a gente sempre conversou muito. Todas as mudanças na vida do pai eram muito conversadas. “O pai vai jogar em Caxias e a gente vai começar a encontrar ele no meio da semana, coisas assim sempre foram faladas. O trabalho da minha mãe às vezes fazia com que ela passasse um mês na África, ou na Inglaterra, e aí ficávamos meu pai e eu. Quando ele estava jogando ou treinando em outra cidade, vinha me ver mais vezes, e assim foi indo. Tudo sempre conversado, acordado. Tipo: “o pai foi demitido, o que a gente vai fazer?” As pessoas acham que a vida existe só do Grêmio. Mas teve muita coisa antes disso.
Entrevistador: Você vivia com medo de seu pai ser demitido por causa da insegurança da profissão dele?
Camilla: Tinha uma época que eu tinha muito medo disso. Todo jogo eu ficava pensando: “Meu Deus, meu pai pode ser demitido hoje”.
Entrevistador: Alguma demissão mais doída?
Camilla: Uma que foi mais marcante. Ele foi demitido do Guarani de Venâncio Aires na segunda vez que foi treinar o time (em 1997). Aí, acho que ele acabou ficando quase um ano em casa. E a gente teve que se reinventar porque o projeto era que ele seria um treinador de futebol. Mas ficar um ano em casa parado não é fácil, ainda mais quando você não é treinador de um clube de ponta, que tem rescisão contratual de valor alto e que deixa que você fique sentadinho em casa vendo TV. Não era isso. Minha mãe teve que puxar a frente das coisas, pintaram propostas para ele trabalhar com outras coisas que não fossem futebol, e foi tentador porque você tem a oportunidade de ganhar um dinheiro que está fazendo falta, mas aí é sair do caminho que você estava planejando. Nessa hora, a figura da família é importante porque a gente tem que dizer: “não, a gente te apoia pra tu seguir teu caminho”. Foi nesse período que meu pai estagiou no Cruzeiro com o (Paulo) Autuori (em 1997).
Entrevistador: O que você aprendeu com ele?
Camilla: A ser franca. Quando eu era criança, meu pai me levava para tomar injeção e dizia: “é ruim, dói, mas passa”. E eu tomava, super corajosa, porque sabia que se ele dizia que ia passar é porque ia passar. E até hoje quando eu passo por uma situação ruim que tenha dor eu sempre penso assim: vai passar. Isso faz parte do processo. Se eu preciso de alguém para me contar a verdade, mesmo que ela vá me doer, mesmo que eu vá chorar, é para o meu pai que eu ligo.
Entrevistador: Quando foi a última vez?
Camilla: No ano passado. Estava há três anos e meio fora do Brasil e faltava uma semana para eu voltar. O clima era de festa total. Enquanto isso, aqui no Brasil, eles descobriram que o pai da minha mãe estava doente, com câncer. Ele não tinha nada, e de repente o corpo dele estava tomado pela doença. Ninguém queria me contar, mas comecei a perceber que alguma coisa estranha estava acontecendo. Liguei para o meu pai e disse: “o que tá acontecendo?” E ele: “só um pouquinho que o pai já vai te ligar”. Depois de um minuto ele ligou e disse: “o vô tá com câncer, ele vai ser operado entre hoje e amanhã, mas é provável que o vô não sobreviva muito tempo”. Pô, para alguém que estava há 3 anos e meio fora, sem ver meu avô há muito tempo, e saber que minha mãe tava sofrendo… Mas é bem mais difícil dar aquela informação do que receber. Aí eu disse: “pai, eu só queria te dizer que de todas as pessoas eu sabia que tu ia me dizer a verdade e eu te agradeço muito a tua coragem de contar isso pra mim”. Não importa a situação, ele sempre diz a verdade.
Fonte: Terra
Um comentário para “A mulher que faz Mano Menezes chorar”
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melhor técnico do brasil! parabéns ótimo blog, continue assim!

